
Narrava a própria Grace Kelly. De cada vez que estreava um filme de Hitchcock, que a própria protagonizava, sentia ganas de entrar pela tela dentro para avisar a sua personagem dos perigos em que incorria. Já Hitchcock, por seu turno, avisava cinicamente os espectadores, “não se preocupem, que é só um filme!” O que é facto é que todas estas reacções assentam num quadro estável de previsão quanto ao comportamento que cada filme pode ou deve suscitar; mas há derrapagens quanto ao modo como reagimos à película que fogem a todos os moldes, a todas as previsões…
Veja-se o
CSI.
A aclamada série colhe reacção entusiástica, crítica favorável, encómios inflamados por todo o globo, facto que,
estou em crer, é da mais evidente justiça. Mas sublinho a frase anterior:
estou em crer…
É que neste que aqui escreve, cada episódio da referida série exerce um efeito soporífero mais potente do que um dardo tranquilizador para elefantes, de tal modo que todos os assassinatos ficam num domínio de indiferente irresolução, furtando-se os criminosos pelos túneis inacessíveis proporcionados pelo meu sono. Um autêntico território de impunidade! E não, não se justifica pela hora tardia, ou pelo cansaço crepuscular do espectador. Desconfiado, fiz a experiência passar pelas mais exigentes variáveis, repeti hipóteses, transformei a minha sala de estar num autêntico laboratório
CSI, e de todas as vezes o resultado confirmou a hipótese – adormeci a meio!
E a conclusão, não sendo evidente, é relativamente simples. Neste intervalo essencial e antigo entre transgressores e cumpridores, pecadores e justos, ardilosos ladrões e sofisticados polícias vou dormindo a bom dormir:
Caio
Sistematicamente
Inconsciente o que me torna
Culpado de
Sonolência
Irremediável. Sim, enganem-se aqueles que julgariam, ao ler as primeiras linhas deste desabafo, que eu viria taxar a série como uma
Cajadada
Sonolenta e
Inócua, facto que me tornaria num
Crítico
Simplificador e
Individualista. Não cedo, pois, ao que seria uma
Cabala
Sinuosa,
Inconsistente. O que direi, isso sim, é que os
Cardumes de
Sonhos
Intangíveis que me são lançados pelo
CSI já me têm valido protestos exclamativos –
Carago, a
Série é
Imperdível! – aos quais
Cedo
Sem
Invectivas. Digo apenas, numa escusa breve e sonâmbula, que mais criminoso que polícia vou penando até aparecerem os próximos Sopranos. Até lá, frente à deusa televisão, assumo-me apenas como um